Férias em demasia

No meio das férias sofri de um mal, que demorei para diagnosticar. Na hora, fiquei até com um pouco de vergonha e me sentindo estranha com a sensação, mas que agora, faz todo o sentido para mim. Passei férias demais. Como se eu não aguentasse mais e não visse a hora de voltar para casa. Foram 45 dias viajando, parte pela Argentina, parte pelo Sul da Bahia. Descansamos, passeamos, comemos bem, como protocolam o período das vacaciones. Tudo perfeito, nada de errado. As duas estadias foram ótimas e eu adorei quase tudo o que passei. Mas é que eu nunca tinha sentido tantas saudades de casa como dessa vez.

Vontade de arrumar a casa, cuidar dela, apreciar todo o conforto que ela me dá e que nenhum outro lugar pode oferecer. Arrumar a estante quebrada, pregar os quadros que a tempos estavam encostados na parede. Resolver os problemas do trabalho, inclusive ficar até tarde para terminar o máximo possível. Marcar reuniões importantes, para deslanchar o que estava emperrado. Resolver pepinos, arrumar a bagunça, desfazer malas. Eu não via a hora de voltar para fazer tudo isso. Insanidade?

Voltei e questionei esse estranho amor ao meu terapeuta. E foi então que a verdade veio à tona: Eu vivo uma vida muito boa. Tenho a sorte de ter um estilo de vida que foge do estabelecido. Se você me perguntar a que horas trabalho, posso te dar duas respostas; 1) o tempo todo; 2) nunca. Explico. Meu trabalho também envolve cuidar da casa e todos os apêndices que vêm com ela - sem brincadeira, na minha casa moram mais de 10 pessoas e mais um cachorro. Administro as finanças da empresa do meu marido, os problemas lá parecem nunca ter fim. E nas horas que sobram, invisto em trabalhar para tirar meus planos do papel. Em todos eles, acabo sendo em parte, dona. Dono, você já deve ter ouvido falar, tira férias quando quer. Mas sempre leva trabalho junto na mala, na cama, nas férias.

Só que, ao mesmo tempo, ter a liberdade de organizar seu próprio tempo, me dá a sensação de não estar trabalhando nunca. Me faz sentir numa espécie de férias em tempo integral. Do tipo, que depois de uma reunião importante, em plena segunda-feira a tarde, eu possa decidir ir ao cinema com meu companheiro. Ou dar um mergulho na piscina, depois de terminar o relatório do fechamento do mês. Tomar uma massagem gostosa, no meio da semana, uma pausa no meio do trabalho. Preparar um bolo no meio da tarde, num dia sem inspiração ou ânimo para labuta.

Então, eu não poderia querer mais além da vida que levo. Não poderia estar mais grata pela casa que moro. Não poderia estar mais feliz pelo marido que tenho. Minha vida é boa em demasia.